Libido aos Pedaços
Neste Romance, o autor desnuda o envolvimento do personagem Otávio Nunes Garcia com a própria psicanalista, Dra. Larissa Pontes, irmã de sua mulher. Aí, duas possibilidades. Primeira: o leitor desfruta, sem contestar, de uma narrativa instigante mas verossímil, que isso de se apaixonar pela cunhada é proverbial (diria Nelson Rodrigues). Ou Roosevelt não teria adorado sua cunhada, tão horrorosa quanto a esposa; João Batista não teria sido decapitado por alardear o incesto de Herodes com a cunhada Herodíades; Freud não teria sobre ele a suspeita de ter tido alguma coisa com a cunhadinha Minna Bernays: o tio de Hamlet não teria assassinado o irmão para ficar com Gertrude e o trono, enfurecendo o príncipe da Dinamarca. Segunda possibilidade: o leitor se envolve numa bela urdidura novelesca e compartilha das diferentes visões dos personagens (e cunhados) sobre o seu espúrio caso amoroso. Enfim, o autor nos leva às brumas do mundo psicológico, onde tudo depende de como se veem as coisas e os fatos. (W.J.Solha)
Confissões de um anjo da guarda
É variada a gama de prazeres literários que o leitor encontrará nestas páginas. Em muitas das onze histórias deste Confissões de um Anjo da Guarda, o anjo Mahlaliel, o narrador, é um dissidente que introduz a ambigüidade, ou até a corrupção, nas hostes celestiais, e sua interferência, sua intercessão a favor dos homens vão da pungência ao sarcasmo e alcançam mesmo o grotesco. Num dos mais saborosos textos, Mahlaliel além de pedir uma audiência (negada) ao Senhor para questioná-lo sobre o desconserto do mundo, depois de dar uns tapas num baseado, revela métodos pouco ortodoxos de socorrer seus protegidos. E, sim, há um humor sem agressão em todos eles. (Jair Ferreira dos Santos)
Memórias da Liberdade (2008)
Desfiei estas Memórias da Liberdade no alvorecer dos anos 1980, quando vivia em Madri. Hoje, relendo-as à luz da maturidade, senão moral ao menos biológica, vislumbro nos textos de então um mostruário narrativo expondo mais do que o autor precisava e menos do que a história merecia. Trazendo a lume esta segunda edição revisada, tudo de engenho e arte que faltou ao livrinho me sobra em significado ao reaver minhas raízes amazonenses, minha alma cearense, meu coração carioca, meu sonho brasileiro. (Carlos Trigueiro)
O Livro dos Desmandamentos
“…mescla de ensaio, teatro mambembe, romance de cordel. Vazado num estilo que não faz concessões ao vulgar, esta frenética fabulação se desdobra em crítica pungente à nossa história política atual, a seus antecedentes e desdobramentos futuros. Trigueiro lança mão de um flash forward em que antecipa ações que vão acontecer para os personagens, mas que para o leitor, são eventos já vividos observados a posteriori; só que o autor os analisa como objetos de crítica social e política, expondo-os à galhofa e ao sarcasmo, já que não pode impedir que aconteçam nem sequer modificá-los, passando a vida a limpo. Enfim, um livro dentro do livro, em que, graças a uma engenhosa arquitetura, o autor sobrepõe à narrativa picaresca todo um aparato socionalítico que esmiúça as nossas esperanças do passado que se foram transformando em desilusões do presente. (Ivo Barroso)
Memórias da Liberdade
A partir do título da obra, ou mesmo de uma citação inicial de Kafka, “uma gaiola saiu em busca de um pássaro”, Trigueiro nos apresenta a essência de suas intenções como escritor de memórias. O que leremos não será a descrição banal de uma série de ocorrências, mas sim uma análise aguda de um relacionamento entre fato e conseqüência, quase sempre ditada por um ceticismo extremamente saudável, que nos leva a repensar qualquer conclusão sobre o comportamento humano. Trabalhando a imagem com a intimidade de um escritor maduro, Carlos Trigueiro compõe capítulo inesquecíveis, como por exemplo Músicos, onde a técnica impressionista empregada na criação das imagens do pai ou do avô nos fornece a informação ficcional necessária à grandeza de qualquer gênero literário. (Victor Giudice)
O livro dos ciúmes
Seguindo a frase-definição de que o ciúme é “imanente fraqueza humana, não há quadrante onde não viceje” e de que “ninguém é imune” a ele, o autor mostra vivência de muitos anos no exterior, em várias culturas, e percorre um delírio de épocas diversas para confirmar que esse “monstro de olhos verdes”, na concepção do eternamente atual Shakespeare, sempre existiu e sempre existirá. Não é sem razão que Carlos Trigueiro revela, no primeiro conto, a existência do borgiano livro Lendas ciganas, rara versão gitana de As mil e uma noites, e da Musa dos Ciúmes, que inspira a criação dos textos. A partir daí todas as onze narrativas, apesar de independentes, se ligam à primeira, em que a personagem, a musa, “com forte sotaque andaluz”, sopra cada um dos contos, cabendo ao narrador adaptá-los “aos tempos e quadrantes da vez”. (Naumim Aizen)
Clube dos Feios
Apurada observação, senso de humor e antiqüíssima visão do funcionamento cósmico que é absoluta novidade na literatura brasileira são trunfos destacados deste livro, que tem pelo menos dois contos primorosos: o do título e “A Associação dos Indivíduos de Apelido Cheong”. Carlos Trigueiro percorreu meio mundo e levou à ficção, de maneira muito feliz, o que viu de essencial: a compreensão (chinesa) de que cada gesto, cada acontecimento faz parte do drama geral arquitetado pelo Poder Superior. Tudo é manifestação do espírito e tem um sentido, um significado. Mais do que isso, um propósito (construtivo). E suas infinitas interações abolem radicalmente o acaso.
(Marcus Penchel)
